Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

The Skin Game

Sustentabilidade em dermocosmética

noah-buscher-x8ZStukS2PM-unsplash.jpg

Adorava vir trazer-vos soluções neste post no que diz respeito a sustentabilidade. Na verdade, acho que venho trazer-vos mais perguntas, mas trazer mais perguntas é bom, faz-nos questionar aquilo com que somos bombardeados diariamente e faz-nos ter maior capacidade de filtrar a informação que nos chega. Foi por isso que decidi escrever este post. Não para me afirmar como uma autoridade na matéria, que não sou de todo, mas para vos ajudar a serem mais críticos.

Este post é uma compilação de informação que achei relevante passar, juntamente com respostas a perguntas que me foram feitas no Instagram. Caso gostassem de ver mais assuntos expandidos neste post, enviem-me pf mensagem pelo IG.

 

O que é um produto dermocosmético sustentável?

Não existe uma definição oficial de sustentabilidade. Contudo, a definição mais comummente aceite é a de que um produto sustentável é um que consegue ir de encontro às necessidades actuais da população sem comprometer as gerações futuras de terem as suas necessidades satisfeitas (do relatório "Our Common Future" de 1987).

No fundo, existem três grandes factores que, conjugados, garantem que um produto é sustentável:

  • dimensão ambiental (preservação do capital natural, da integridade dos ecossistemas e da biodiversidade);
  • social (cumprimento de direitos humanos em toda a cadeia de produção, preservação de identidade cultural, garantia de equidade e acessibilidade);
  • financeira (viabilidade económica enquanto são garantidos os parâmetros anteriores).

 

O que é que influencia a sustentabilidade?

Ao longo do ciclo de vida de um produto, basicamente tudo influencia a sua sustentabilidade. Se formos pelo processo Life Cycle Thinking, num produto dermocosmético entram os seguintes factores:

  • design - a fase mais relevante, pois é daqui que partem as raízes para todo o processo restante. Um design inicial que pondere logo a sustentabilidade será a peça chave.
  • obtenção de matérias-primas - é necessário ponderar se os ingredientes provêm de agricultura sustentável (não leva à exaustão dos solos, preserva a biodiversidade, não põe em risco a biodiversidade local, etc), o método de extração, as substâncias utilizadas no processo, abastecimento ético e responsável (os trabalhadores recebem salários dignos, vivem em condições de segurança e higiene, não se contribui para o enriquecimento de senhores de guerra em zonas de conflito ou máfias), comércio justo (empoderamento de pequenas comunidades, muitas vezes compostas por pessoas excluídas pela própria sociedade em que estão integradas), desenvolvimento económico.
  • produção - são cumpridos os preceitos de higiene e segurança, utilização inteligente de recursos hídricos e energéticos, produção de lixo e desperdício no processo, emissões poluentes, transporte, envolvimento da comunidade.
  • embalagem - material escolhidos, redução à embalagem estritamente necessária, uso de recursos hídricos, emissões poluentes.
  • distribuição - quilometragem percorrida na rota, meio de transporte e tipo de combustível usados, transporte de carga completa ou parcial, frequência de entregas.
  • utilização do consumidor - garantia de benefícios funcionais, segurança do produto, benefícios sociais, boa utilização por parte do consumidor, consumo de recursos hídricos e energéticos.
  • utilização pós-consumo - possibilidade de reutilização ou reciclagem da embalagem, biodegradabilidade da fórmula (capacidade de se decompor em subprodutos não tóxicos para o ambiente), desperdício de embalagem, emissões para a água.

Para saberem um pouco mais sobre isto, a Sara Fernandes do Make Down fez um IG live com a Dr.ª Joana Marto, professora da FFUL e que tem trabalhado nesta área nos últimos anos.

 

Os produtos "clean", orgânicos e naturais são mais sustentáveis?

Não, estas claims não têm nada a ver com sustentabilidade. Um produto natural pode ser sustentável, mas não o é automaticamente só por ser natural. Na verdade, muitos produtos naturais não são sustentáveis precisamente pela fórmula natural. A obtenção de ingredientes naturais requer frequentemente uma grande área de plantação e existem alguns ingredientes como os óleos essenciais que consomem imenso material natural para se obter uma pequena quantidade de produto. Os produtos "clean" são apenas ridículos, porque partem de uma base de que pessoas que não percebem de toxicologia podem decidir que um ingrediente é tóxico. Por favor, fujam da abordagem "clean". Os orgânicos têm a ver com as plantações e os métodos usados, que não são necessariamente sustentáveis.

 

Há alguma certificação de sustentabilidade?

Não, não existe nenhuma certificação oficial. Contudo, existem algumas certificações como a B Corp, o Fair Trade (comércio justo), a UTZ ou a Rainforest Alliance que vos podem dar algumas indicações.

 

O que é o greenwashing?

É uma técnica de marketing que utiliza claims para fazer parecer que o produto é mais sustentável do que realmente é. No fundo é uma forma de iludir o consumidor e fazê-lo acreditar que não há problema em comprar aquele produto porque o produto é sustentável, quando na realidade não é. Um exemplo super comum é a claim de que o protector solar não contém filtros que matam corais (mais sobre este assunto abaixo, na pergunta própria).

 

Faz sentido trocar todas as embalagens de plástico por papel ou vidro?

É mais complexo do que pode parecer à primeira vista. O papel surgiu como uma alternativa "fácil" ao plástico. Contudo, o papel provém de um recurso finito, embora tenha uma pós-vida mais sustentável do que o plástico. Neste momento o papel está a ter uma procura tão elevada que os preços subiram drasticamente, porque não há capacidade de produção adequada. O vidro tem problemas por causa do peso (leva a maiores consumos durante o transporte) e por ser facilmente quebrável (pode exigir mais material de acondicionamento).

Além disto, há que considerar a compatibilidade da fórmula com o material de acondicionamento. Têm surgido materiais alternativos promissores que terão mais vantagens do que estes dois.

 

Os protectores solares estão a matar os corais?

Não. Há um conjunto de factores responsáveis pelo branqueamentos dos corais e os protectores solares estão mais ou menos no lugar 50 das preocupações de quem realmente percebe do assunto (vou ver se entretanto consigo encontrar a referência para isto, já o li há algum tempo e agora não consegui descobrir o paper). No geral, o que está a matar os corais são as alterações climáticas, em particular o aumento na temperatura das águas. Sim, faz sentido que a fórmula seja biodegradável, mas esta é uma daquelas alegações de marketing que se fazem mais relevantes do que realmente são.

 

A indústria dermocosmética é assim tão insustentável?

É, principalmente por um factor em específico: o apelo ao consumismo. Neste momento o maior foco devia ser em "reduzir", mas o marketing continua a encher-nos de necessidade de tirarmos fotos às nossas colecções de produtos e de que uma rotina de 17 passos é exactamente aquilo de que a nossa pele precisa. Ninguém precisa de uma colecção de produtos cosméticos, até porque só existe uma pele e vamos estar a desperdiçar produto.

E é precisamente aqui que entra o greenwashing e o "compra porque é sustentável". O foco aqui deveria ser "compra se necessitares, opta pelo sustentável sempre que possível". E não a validação de que comprar está ok porque é sustentável.

mert-guller-jFBWOaoS-7o-unsplash.jpg

O que posso fazer no dia a dia?

Aqui, por razões óbvias, vou apenas focar-me na parte da dermocosmética. Se quiserem saber mais sobre vida sustentável, recomendo a página de Instagram da Catarina Barreiros.

O passo mais essencial é, como já referi, reduzir. Somos constantemente iludidos por greenwashing de que desde que compremos e reciclemos está tudo ok, mas os 3 Rs (reduzir, reutilizar, reciclar) não são todos iguais em termos de importância. O ideal é comprar apenas os produtos necessários depois de terminar aqueles que estamos a usar. Claro que estamos autorizados a comprar novos produtos caso os que usamos não estejam a funcionar, mas nesse caso devemos procurar dar uma nova vida aos produtos que ficaram por usar - dar a amigos ou família, por exemplo. Existem associações que aceitam doações de produtos cosméticos (no meu caso, como recebo imensos, doo produtos fechados à Associação Plano i).

Além disso, ajuda sempre se cumprirmos as instruções de utilização, usarmos apenas a dose de produto necessária e apenas utilizarmos a água necessária ao processo (caso exija utilização de água)

Ao comprar, procurar sempre que possível marcas que sejam sustentáveis. Por exemplo, as marcas Evolve e Mádara cumprem rigorosos processos de sustentabilidade e podem inclusivé ler os relatórios de sustentabilidade nos sites. Tanto a Apivita como a ISDIN são B Corp. O grupo Pierre Fabre (Klorane, Avène, A-Derma, René Furterer, Ducray) tem programas muito interessantes de sustentabilidade. A The Body Shop basicamente inventou o conceito de Comércio Justo na dermocosmética. Em termos de grandes grupos, a L'Oréal é o grupo que mais activamente tem procurado soluções e inovações a nível de sustentabilidade.

 

Como é que reciclo os meus produtos?

Primeiro que tudo, o ideal é ver se a própria embalagem tem instruções. A instrução que estão à procura é o símbolo do ecoponto em que deve ser colocado. Se querem saber mais sobre sinalética relativa a reciclagem, vão pf à página dedicada a isso da Sociedade Ponto Verde, pois nem todos os símbolos aparentes de reciclagem são realmente referentes a isso. Caso não tenha nenhum dos símbolos, então há soluções.

Podia lançar-me aqui numa tentativa exaustiva de vos explicar produto a produto, mas a L'Oréal em parceria com a Sociedade Ponto Verde lançou o ano passado um site que explica como reciclar cada tipo de embalagem. Isto é a solução ideal, porque cada país tem as suas regras de reciclagem e não vale a pena olharmos para instruções e guias de outros países. Dêem um salto à página do Reciclar em Beleza.