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The Skin Game

Blogue português escrito por uma profissional de farmácia e dedicado à dermocosmética.

Notas soltas: O que comprar e como preparar biberões de leite adaptado

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Eu bem sei que este post está fora do que escrevo habitualmente, daí estar nas notas soltas, mas eu gostava de ter tido um post destes para ler quando cheguei a casa no primeiro dia e a minha filha tinha acabado de recusar a mama. Basicamente ela recusou a mama no terceiro dia de vida e se a consegui amamentar duas vezes depois disso foi muito. Isto significa que o Nelson teve de sair porta fora e ir comprar uma série de coisas que não estávamos à espera de precisar, e muito menos logo no primeiro dia em casa. Como não contávamos que a amamentação desse errado, não tínhamos lido nada sobre nada e estávamos desorientados em relação ao que precisávamos ou não. Portanto este post é para quem precisa de orientação com o que fazer quando é preciso dar leite adaptado (poupem-me o sermão de que o leite materno é melhor, todos sabemos que sim e não estou a promover a substituição por leite adaptado, mas sim a tentar ajudar quem precisar de o usar). O ideal é escolherem uma marca e usarem tudo dessa, porque eles garantem que os tamanhos são todos compatíveis e não tem de haver ginásticas. Por confiarmos na marca, tudo o que usamos é da Avent, mas outra marca espectacular é a Dr. Brown's.
 
Lista de compras para leite adaptado
 
- 8 biberões de tamanho grande, pois os pequenos só aguentam 120ml e deixam de ser usados muito cedo. No nosso caso optámos pelos de vidro da Avent Natura, mas se calhar se soubesse que a amamentação ia mesmo ao ar teria comprado os anti-cólicas e não estes. Por outro lado ela pegou bem nestes, que teoricamente são mais fisiológicos.
- tetinas adequadas à idade, porque geralmente os biberões vêm com tetinas 2 (que se introduzem aos 2 meses).
- 1 esterilizador. Não é obrigatório esterilizar mas optámos por fazê-lo porque na maior parte das vezes não lavamos o biberão logo a seguir a dar. No nosso caso fomos para o eléctrico da Avent porque assim só precisamos de esterilizar uma vez por dia (apesar de dizer que cabem seis biberões, cabem sete).
- água destilada, caso usem o esterilizador eléctrico, para garantir que não se acumulam depósitos na placa de aquecimento.
- escovilhão de biberões, porque é impossível lavar biberões adequadamente sem ele.
- doseador de leite, porque quando saímos não queremos ter de levar a lata de leite atrás. O da Avent permite preparar três doses e nunca precisámos de mais do que isso. Contudo, é opcional, e podem decidir levar a lata de leite convosco.
- aquecedor de biberões de viagem com termo, que usamos mesmo em casa porque os eléctricos demoram mais e não têm boa regulação. O nosso é da Avent.
- água adequada a bebés, como a Vimeiro Original ou Luso. Se comprarem água engarrafada não precisam de a ferver, mas podem usar água da torneira fervida e arrefecida (mas sinceramente não há tempo livre para isso).
- leite adaptado, de acordo com a recomendação do médico que acompanha o bebé. Nunca comprem mais de uma embalagem no início porque o bebé pode não se adaptar ao leite.
- escorredor de biberões, que pode parecer um luxo, mas tem dado imenso jeito, porque pôr oito biberões a escorrer junto com a louça é caos garantido e louça partida.
- fervedor de água para pelo menos 1L de água.
 
O processo
 
Este é o processo cá em casa e serve apenas como exemplo. Se têm outros processos, PF deixem na caixa de comentários. A ideia aqui é tentar ajudar e por isso todos os métodos são bem vindos, porque cada família vai dar-se melhor com certos procedimentos.
 
Coisas necessárias:
1. Biberões lavados, esterilizados e prontos a usar no escorredor
2. Termo cheio com água da torneira fervente para usar em banho-maria
3. Leite adaptado
4. Água para bebé
 
O procedimento:
1. Enchemos o biberão com a quantidade de água necessária para preparar a dose, deitando directamente da garrafa para o biberão, e tapamos com a tetina. 
2. Despejamos cerca de 2cm de altura de água a ferver no copo do aquecedor de biberões e colocamos lá o biberão.
3. Esperamos cerca de 2-3min que o biberão aqueça, retiramos e agitamos o biberão para homogeneizar a água lá dentro.
4. Colocamos a quantidade adequada de leite em pó (usando a patilha lateral da lata de leite para razar o doseador).
5. Agitamos bem com movimentos circulares durante pelo menos 20 segundos, de modo a dissolver todos os grumos que se possam ter formado.
6. Se notarmos que está quente, colocamos o biberão uns segundos em água fria corrente.
7. Damos à bebé, tendo o cuidado de garantir que a tetina está apenas com leite e sem ar (geralmente implica inclinar mais o biberão) e que ela tem os lábios para fora, tal como na amamentação. Pode ser preciso parar a meio para arrotar.
 
Notas:
- nós temos dois termos com água e cada um deles aguenta meio litro. Assim evitamos ter de estar sempre a aquecer água.
- como usamos sete biberões por dia, o esterilizador é usado uma vez por dia, sempre à mesma hora (basta tirar o cesto e cabem sete biberões em vez de seis).
- quando saímos de casa preparamos sempre mais uma dose do que aquilo que achamos que vamos precisar, porque assim se tivermos um atraso inesperado não há problema.
- no meu caso ponho o leite a aquecer e vou trocar a fralda, acabando a preparação depois de ter trocado. No caso do meu marido, ele prefere preparar o biberão na totalidade, trocar a fralda e depois dar.
- os biberões podem ser lavados à mão ou na máquina de lavar. No nosso caso lavamos à mão com o detergente da louça normal.

Notas soltas: negativismo na gravidez

Confesso que senti isto desde o início da gravidez, mas quis esperar até ao fim para perceber se isto era realmente uma coisa que acontecia. E portanto aqui estou eu, quase com 9 meses de gravidez em cima, a escrever este post.

 

Eu sabia que muita gente tem muita coisa a opinar no que diz respeito a gravidez e filhos. Acho que aquilo com que não contava era o negativismo constante em relação a tudo. Quando digo "tudo", acreditem que é mesmo tudo. Essencialmente não havia uma coisa positiva que eu tivesse a dizer sobre a gravidez que não resultasse em alguém dizer-me ou enviar-me mensagens em como eu estava era tolinha do juízo e que esperasse só para ver.

"Tive a sorte de que a minha acne desapareceu durante a gravidez, a minha pele está melhor na gravidez do que antes" --> "ahahaha espera só para ver o que te acontece depois do parto, as hormonas são loucas" (jurem, imaginem só que eu tinha uma licenciatura em farmácia e até sabia dessas coisas, mas obrigada pelo feedback)

"Por acaso não tive problemas com retenção de líquidos até agora, nunca inchei" --> "ahahahaha espera só pelo fim da gravidez e depois conversamos, isso é tudo muito giro agora, mas não te safas" (spoiler: 39 semanas no bucho e zero retenção de líquidos, obrigada e adeus)

"Quando acabar as mudanças da casa vou ter mais tempo livre e consigo voltar ao blogue" --> "ahahahaha vais ver a paciência que tens no fim da gravidez" (eu gosto de escrever, e efectivamente tenho mais tempo livre agora do que tinha nos meses em que estive na mudança de casa)

"Vou finalmente poder comer sushi depois da gravidez e está quase!" --> "ahahahahah até parece que vais ter tempo para fazer o que quer que seja, deixa-te de ilusões" (pessoas, eu não acho que vou ter muito tempo livre, mas ao mesmo tempo sei que há takeaway de sushi em mil sítios no Porto e aquilo não é propriamente uma coisa que arrefeça se eu não puder comer logo, sabem?)

Ok, estes foram só alguns dos exemplos parvos e ridículos que me lembro agora. Mas é isto, aparentemente na gravidez não dá para ter uma atitude positiva sem ter alguém que ache que é a sua missão de vida "explicar à grávida tontinha como a vida realmente é".

 

Uma coisa que aparentemente também não dá para ter é uma gravidez santa. Aparentemente não estamos autorizadas a dizer que tivemos uma gravidez que correu bem, sob pena de estarmos a criar expectativas falsas sobre a maternidade e estarmos a colocar pressão sobre as outras grávidas. Esta nova moda de que temos de "mostrar como as coisas realmente são" parece que quer impedir as pessoas a quem as coisas correm bem de falar. Eu tive uma boa gravidez e gostei de estar grávida, é isto que tenho a dizer sobre a minha experiência.

Confesso que, sendo uma gravidez não planeada e tendo como background o meu curso, eu parti para esta gravidez cheia de medo do que aí vinha. A sério, aterrorizei tudo o que havia para aterrorizar naquelas primeiras semanas, porque aquilo que eu antecipava eram as histórias de terror que toda a gente adora contar. Os milhares de artigos que hoje em dia andam por aí de "vamos falar da gravidez como ela realmente é" aparentemente não contemplam a minha gravidez, porque ela essencialmente correu bem e sem percalços. Não inchei, não tive nenhum percalço de saúde na gravidez e senti-me sempre bem no geral (excepto dois dias em que enjoei no primeiro trimestre e agora as últimas semanas de gravidez em que me custa mais mexer). E aparentemente estas histórias criam expectativas irreais nas pessoas e portanto não se pode falar delas.

Mais uma vez, não estou a dizer que todas as gravidezes vão ser como a minha, mas caramba, a minha experiência é uma possibilidade real e não uma expectativa irrealista.

 

Ah sim, e aparentemente não posso dizer que a gravidez não foi planeada, porque depois a rapariga vai saber e "o que é que ela vai pensar?". Não só a minha filha vai saber que não foi planeada, como vai saber tudo o que aconteceu depois, incluindo considerarmos viver com ela no T1 onde vivíamos quando engravidei e eventualmente acabarmos a comprar uma casa meio às três pancadas depois de decidirmos que não íamos comprar casa nos próximos dois anos. Ela não ter sido planeada faz parte do início da história dela e diz zero sobre o quanto gostamos dela. E acreditem, ela vai saber tudo isto e prometo que não a vamos traumatizar.

 

Agora, gente, vamos lá ver umas coisas que realmente dão jeito às grávidas da vossa vida:

  • não contem as piores histórias de partos às grávidas que conhecem excepto se elas vos pedirem (e mesmo assim filtrem alguns);
  • não considerem a vossa missão de vida "chamar a grávida à realidade" até porque vocês não têm uma bola de cristal e a vossa experiência não é a experiência de toda a gente;
  • dêem a mão à grávida quando ela vos disser que está a ser uma bosta em vez de relativizarem o problema e dizerem que tem é de se focar no bebé e vai tudo correr bem;
  • repitam o mantra "uma grávida não é uma incubadora" e portanto compreendam que apesar de querer o melhor para o bebé, às vezes a coisa custa horrores e há cedências que têm de se fazer em prol dela enquanto pessoa;
  • se a grávida quer muito que algo aconteça no futuro, ajudem-na a alcançar isso se puderem - se ela diz que mal pode esperar por comer X, apareçam-lhe em casa com isso quando o bebé nascer (e não aproveitem para ficar 4h a fazer sala, a menos que sejam convidados a isso), em vez de lhe dizer que está é tolinha do juízo e não vai acontecer;
  • não achem que por a vossa experiência ser uma, que todas as pessoas vão ter uma experiência igual.

Notas soltas: e o que é que fazes da vida, Ana?

Eu acho que prometi este post há coisa de um ano, mas por esta altura já devem ter reparado que não sou a pessoa com o maior à-vontade do mundo para falar da sua vida. Metam-me a falar de dermocosmética e eu não me calo durante 6h seguidas, mas esta coisa de partilhar a vida privada online não me assiste muito. Por outro lado, como sei que há muitas perguntas sobre aquilo que faço, se faço atendimento ao público nalgum sítio e de pedidos de dicas sobre como aprender mais sobre a área, vamos lá a isto.

 

Percurso profissional

Ora portanto, para começar, eu sou licenciada em Farmácia. Inicialmente o bicho meteu-se-me na cabeça porque em 2000 estreou o CSI e eu descobri que a Toxicologia era uma área das ciências farmacêuticas (não, não estou a brincar). Entretanto meti-me no curso e percebi que não ia acontecer, mas fiquei a gostar mesmo muito de farmácia comunitária e achei que tinha descoberto o sonho da minha vida.

Entretanto o panorama da farmácia mudou mesmo muito - com o aparecimento dos medicamentos genéricos, da possibilidade dos donos serem outra coisa que não farmacêuticos, a mania do doutor Google e a crise económica de 2008 - e foi com grande tristeza que percebi que as equipas das farmácias tinham perdido a confiança e o respeito dos utentes (algumas com razão, outras por mera estupidez alheia, porque as pessoas continuam a achar que quem trabalha em farmácia está ali para suprir os desejos de quem vai comprar coisas e não tem direito a opinar sobre o assunto ou não fornecer medicação - newsflash não estamos ali para encher sacos e fazer trocos, gente). Desencantei-me da farmácia comunitária gradualmente e também gradualmente fui ficando a perceber que a dermocosmética me interessava cada vez mais.

Para quem não sabe (e para quem me perguntou por que é que não exerço na minha área), a dermocosmética também é uma área das ciências farmacêuticas. Por essa altura já tinha um blogue há alguns anos em que falava do tema porque simplesmente sempre tive uma pele complicada e fui pesquisando cada vez mais para tentar resolver os meus próprios problemas. Acabei por fechar esse blogue e abri este, completamente dedicado a todo o mundo da dermocosmética. Falo do blogue no percurso profissional porque foi ele que me abriu as portas aos meus dois empregos na área.

Ao contactar a YOUTH LAB. para ter mais algumas informações sobre a marca para poder verificar se era ou não interessante para falar no blogue, foi-me oferecido emprego. Acabei por me tornar formadora da marca durante cerca de ano e meio (entretanto tinha tirado o CCP), até ter percebido que queria mais estabilidade na minha vida. Os dias de horas longas e viagens solitárias de muitas centenas de quilómetros acabaram por me ganhar, e comecei a pensar em procurar outra coisa.

Por indicação de uma ex-colega de curso que já trabalhava nessa empresa, soube que a Care to Beauty estava a pensar contratar alguém e enviei o meu CV. Uma semana depois tinha uma oferta de emprego em cima da mesa. Entrei como criadora de conteúdo (mas na verdade fazia muito mais coisas, porque éramos uma empresa mesmo pequena na altura) e estou actualmente como gestora de conteúdo. Portanto basicamente é isso que faço: sou a chefe de equipa dos conteúdos de uma loja online de dermocosmética, escrevo para o blogue da empresa e dou uma mãozinha no apoio ao cliente em casos mais específicos ou complicados de aconselhamento. Em SOS, faço mais uma série de outras coisas, porque apesar de termos crescido muito nos últimos dois anos, continuamos a não ser uma empresa gigante.

 

Como saber mais sobre dermocosmética

Vou ser muito honesta quando vos digo que não sei muito bem o que recomendar como começo. Sinceramente eu não me lembro bem como é que isto começou para mim, porque nunca começou como um objectivo claro, apenas como uma forma de tentar resolver os meus próprios problemas. Mas indico-vos algumas das coisas que fui fazendo ao longo dos anos.

  • Ir ao PubMed e procurar reviews recentes sobre as questões que acham que vos trazem mais dificuldades - ninguém tem paciência para começar a ler artigos de investigação a menos que esteja à procura de uma resposta muito específica. Existem imensas boas reviews de várias páginas sobre coisas como rosácea, acne, envelhecimento, protecção solar e outros que tais, para começar.
  • Requisitar livros de dermocosmética nas bibliotecas também é algo que sempre fiz, especialmente para questões mais complicadas para as quais não encontrava grande resposta online.
  • Procurar pós-graduações e formações na área dadas por entidades competentes como faculdades de farmácia ou institutos politécnicos. Não caiam no erro de pagar por toda e qualquer formação que vos apareça à frente dada por sabe-se lá quem e sem um plano de estudos bem apresentado, porque há muita gente neste mundo a tentar explorar a sede de conhecimento nesta área.
  • Perceber como é que os ingredientes encaixam com os produtos é outra questão premente. Por mais formações teóricas que façam, se não conseguirem transportar esse conhecimento para os produtos disponíveis perderam o vosso tempo. Leiam rótulos e listas de ingredientes, façam notas e tabelas (o meu documento sobre este assunto tinha cerca de 60 páginas).
  • Se puderem ir a formações de marcas, vão. Sim, todos sabemos que as formações são geralmente 90% de marketing, mas aqueles 10% em cada uma delas valem bem a pena se estão dedicados a aprender mais sobre o assunto.
  • Tentem experimentar e procurem feedback junto de quem puderem - entre amigos, família e utentes, reunir experiências com as quais possam aconselhar outras pessoas é uma óptima forma de construir uma base de dados mental sobre produtos.
  • Arranjem uma forma de mostrar aquilo que sabem. Este blogue sempre me serviu não como carreira, mas para mostrar a possíveis futuros empregadores aquilo que eu posso fazer numa. E por duas vezes já me valeu bem todo o esforço e as várias horas que dedico a ele.

 

No meio disto tudo não sei se isto foi útil ou não, mas espero que sim. A dermocosmética não era o meu sonho e não trabalhei nesse sentido até muito recentemente, por isso não vos posso garantir como é que um esforço dedicado à área pode ou não dar frutos. Na verdade eu sinto que fiz metade da minha sorte nos últimos tempos e a outra metade caiu-me no colo e acho sempre que acaba muito por passar por aí: sorte e trabalho. Portanto boa sorte a quem quiser seguir a área e, sem dúvida, trabalhem muito nesse sentido.

Notas soltas: vamos a meio da gravidez

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Para quem não me segue nas redes sociais isto é capaz de soar estranho, mas sim, estou grávida de uma menina e chegámos hoje a meio do caminho, 20 semanas (que se traduzem mais ou menos em quatro meses e meio). Sim, eu tenho plena noção de que me casei em maio, obrigada por relembrarem, mas vocês poderiam queixar-se do plano se tivesse havido um (que não houve). A pequena foi um feliz acidente que aconteceu menos de um mês depois de casarmos e que nos virou a vida de pernas para o ar. 

Sim, este vai ser um post sobre gravidez, por isso quem não se interessar sobre o assunto, pode fechar e passar à frente, ficamos amigos na mesma. Mas a verdade é que durante os primeiros tempos em que pouca gente sabia da gravidez, ler posts e ver vídeos de outras pessoas sobre o tema fez-me sentir que não estava sozinha no mundo. Curiosamente, apesar de a partir do momento em que estás grávida estás sempre acompanhada de uma mini pessoa, há alturas que são mesmo muito solitárias.

 

Querer ou não querer filhos

Eu não tinha decidido ainda se queria ter filhos e era um tema que falava com muitas pessoas, porque era mesmo algo para o qual não conseguia encontrar uma resposta que me deixasse confortável. Contudo, sabia uma coisa: que se acontecesse, eu não quereria abortar. E essencialmente foi assim que o universo tomou a decisão por mim. Nunca fui alguém que sente que precisaria de filhos para sentir que teria uma vida completa, mas ao mesmo tempo sempre adorei crianças e a ideia de ter uma família maior com o Nelson. Também sempre consegui ver as vantagens e as desvantagens em ambas as situações e por isso não ficava fácil encontrar uma resposta à pergunta do "quero ou não ter filhos?".

 

Teste positivo

Querem saber a parte mais ridícula? O que me fez achar que estava grávida foi o facto da minha testa, que na TPM habitualmente ficava toda rebentada com pequenas borbulhas, estar lisinha como nunca antes visto. Isso aliado a alguns dias de atraso fez-me ir comprar um teste de gravidez, porque pensei "ok, fodeu" (perdoem o vernáculo, mas estou a ser honesta aqui, relembro que não havia qualquer plano para isto acontecer). Não fui à minha farmácia habitual porque foi onde estagiei e conheço a equipa toda, mas claro que tinha de chegar à outra farmácia e descobrir que conhecia toda a gente que estava ao balcão. Lá passou um outro rapaz de bata por mim para ir também atender, chamou a minha senha e lá fui eu toda contente a pensar que até me tinha safado, até olhar para ele e perceber que era o meu ex-colega de casa da altura do curso. Pode-se dizer que a conversa foi interessante... Chegados a casa, o teste deu positivo passados 5 segundos e ficou o assunto arrumado.

 

O primeiro trimestre

Apenas algum contexto sobre a minha situação: tenho uma doença auto-imune diagnosticada e outra hipotética, e portanto a minha ginecologista (e agora obstetra) já me tinha alertado que quando decidíssemos ter filhos teria de ter em atenção que a probabilidade de sofrer um aborto espontâneo seria mais elevada do que o habitual. Portanto esta situação foi algo que se manteve (e mantém) sempre presente lá no fundinho da mente, apesar de estar a fazer medicação preventiva desde que a gravidez foi confirmada. E é aqui que começa a chatice da gravidez - como é que uma pessoa equilibra o entusiasmo com a ideia sempre presente de que não podes estar muito entusiasmada porque a coisa pode correr mal?

A minha ideia original era fingir que nada estava a acontecer até às 12 semanas, mas depois de falar com um psiquiatra sobre o assunto ele desaconselhou-me fortemente essa minha ideia original, porque se corresse bem teríamos perdido três meses inteiros de gravidez. E foi assim que decidimos que esta gravidez faria parte da nossa história, quer corresse bem ou mal, e acabámos por contar a quase toda a gente antes das 12 semanas.

O primeiro trimestre para mim foi um bocado chato por causa do sono. Gente, eu parecia um panda exausto. Chegava às 21h completamente a cair de sono (para referência a minha hora habitual de ir para a cama é à 1h da manhã) e ficava completamente incapaz de interagir com pessoas. Felizmente os enjoos foram muito suaves - estava ligeiramente nauseada durante o dia todo, mas nunca me impediu de comer nada. Às 10 semanas as náuseas desapareceram por completo, sem nunca ter precisado de recorrer à medicação. Outra coisa engraçada é isto - a razão pela qual eu optei sempre por não tomar medicação, além do facto de as náuseas estarem bastante suaves, é que no primeiro trimestre uma pessoa tem tão pouco para se agarrar que as náuseas acabavam por ser uma garantia de que a bebé continuava ali e a desenvolver-se. Não admira que as grávidas fiquem todas meias tolas do juízo, gente, isto é tudo demasiado complicado.

Falando de tolas do juízo, falemos de mood swings. O Nelson jura a pés juntos que não foram nada péssimos (já referi que o meu marido é uma pessoa inteligente?), mas houve dias em que eu me senti como se estivesse na TPM, em que respondia mais torto do que a situação requeria e só não dava asneira porque ele tinha paciência. Além disso fiquei carente num nível quase idiota, coisa que ainda se mantém por agora. Mas hey, querer mimo extra não me parece a pior coisa do mundo.

E vamos conversar sobre uma coisa que não devia interessar para nada, mas que muitas grávidas saberão do que estou a falar: a fome monstruosa que, mesmo tentando controlar, se traduz em excesso de peso logo no início (para quem não tem o azar de estar sempre enjoada que nem uma posta de pescada e portanto não consegue comer). Vamos ser honestas, todas vimos para aqui a saber que isto vai inchar por todos os lados, mas o impacto psicológico de estares com tanta fome que até de dói o estômago, tentares controlar e depois engordares na mesma é um valente filho da mãe. Não estou a falar de ficar com a barriga de grávida, porque isso não acontece no primeiro trimestre, estou a falar de pneus mesmo. Eu engordei 4kg logo nas primeiras oito semanas de gravidez e isso notava-se bem. Entretanto a fome descontrolada foi passando, meti-me a fazer ginásio de forma regular com um plano adaptado (e com autorização da obstetra) e consegui reduzir meio kg no mês seguinte, bem como transformar algum peso daquela massa gorda em massa magra. Mas gente, o pneu é real e é uma valente bosta, portanto se vos aconteceu o mesmo, estou aqui para vos dizer que não estão sozinhas e que podem recuperar o controlo mesmo dentro da gravidez, desde que o façam com juízo e acompanhamento.

 

O segundo trimestre

Ainda só vou num mês disto, mas definitivamente o segundo trimestre é muito mais fácil, que foi algo que não esperava. Presumi sempre que a coisa ia piorando até a criança estar cá fora, e depois aí descambava de vez. Mas não, a natureza achou que as grávidas mereciam ali um mini descanso, e portanto o segundo trimestre é super tranquilo para a maioria das pessoas.

Esta coisa de sentir a bebé cá dentro (agora até o pai já consegue sentir) tem imensa piada e é um verdadeiro descanso para a alma de quem sabe que isto pode dar asneira a qualquer momento. Nós descobrimos que íamos ter uma menina muito cedo, às 12 semanas com confirmação oficial às 14, e portanto foi giro todo o processo de decidir o nome e agora falarmos nela usando um nome concreto.

O segundo trimestre foi também o fim do mundo com a procura de casa, porque vivemos actualmente num T1 arrendado e precisávamos de mudar - optámos por explorar a compra de uma casa e foi isso que decidimos fazer. Contudo, tivemos uma série de chatices com o processo, incluindo uma avaliação baixíssima da casa por parte do banco, que resultou em pedidos de reclamação que felizmente foram tidos como razoáveis e o valor subiu mesmo muito, permitindo-nos comprar a casa e não perder o sinal que tínhamos dado. Experimentem passar por uma cenas destas juntamente com hormonas de gravidez - decididamente não recomendo, houve dias absolutamente horrorosos.

 

Toxoplasmose

Aquilo que me chateou mais na gravidez e ainda chateia é o facto de eu não ser imune à toxoplasmose. Vocês sabem que eu gosto de comer, pessoas. Raramente consigo pedir comida num local público sem ter de fazer mil perguntas primeiro e pedir para tirarem um ou dois ingredientes ao prato. Aliás, farto-me de contar que tive uma formação com brunch na Champs Baixa Bistrô e aquilo que eu fiz foi comer melão e pão com queijo flamengo, enquanto as minhas colegas rebolavam em comida boa e saladas maravilhosas. A miúda vai ter de me compensar bem por 9 meses sem queijo da serra, bifes mal passados, francesinhas, ovos mal cozinhados e saladas no geral (passar um verão inteiro sem poder comer uma salada césar ou tosta de abacate com ovo estrelado matou-me).

 

E pronto, chegamos ao fim deste testamento acompanhados de pontapés da miúda, que resolveu que já eram horas de acordar. Tenho uma mala cheia de cuidados de pele para bebé de que eventualmente falarei, provavelmente só depois das mudanças, mas não se preocupem porque isto vai continuar a ser um espaço para falar de e para adultos, apesar de passar a incluir mais alguma conversa sobre bebés e crianças.