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The Skin Game

Blogue português escrito por uma profissional de farmácia e dedicado à dermocosmética.

Notas soltas: negativismo na gravidez

Confesso que senti isto desde o início da gravidez, mas quis esperar até ao fim para perceber se isto era realmente uma coisa que acontecia. E portanto aqui estou eu, quase com 9 meses de gravidez em cima, a escrever este post.

 

Eu sabia que muita gente tem muita coisa a opinar no que diz respeito a gravidez e filhos. Acho que aquilo com que não contava era o negativismo constante em relação a tudo. Quando digo "tudo", acreditem que é mesmo tudo. Essencialmente não havia uma coisa positiva que eu tivesse a dizer sobre a gravidez que não resultasse em alguém dizer-me ou enviar-me mensagens em como eu estava era tolinha do juízo e que esperasse só para ver.

"Tive a sorte de que a minha acne desapareceu durante a gravidez, a minha pele está melhor na gravidez do que antes" --> "ahahaha espera só para ver o que te acontece depois do parto, as hormonas são loucas" (jurem, imaginem só que eu tinha uma licenciatura em farmácia e até sabia dessas coisas, mas obrigada pelo feedback)

"Por acaso não tive problemas com retenção de líquidos até agora, nunca inchei" --> "ahahahaha espera só pelo fim da gravidez e depois conversamos, isso é tudo muito giro agora, mas não te safas" (spoiler: 39 semanas no bucho e zero retenção de líquidos, obrigada e adeus)

"Quando acabar as mudanças da casa vou ter mais tempo livre e consigo voltar ao blogue" --> "ahahahaha vais ver a paciência que tens no fim da gravidez" (eu gosto de escrever, e efectivamente tenho mais tempo livre agora do que tinha nos meses em que estive na mudança de casa)

"Vou finalmente poder comer sushi depois da gravidez e está quase!" --> "ahahahahah até parece que vais ter tempo para fazer o que quer que seja, deixa-te de ilusões" (pessoas, eu não acho que vou ter muito tempo livre, mas ao mesmo tempo sei que há takeaway de sushi em mil sítios no Porto e aquilo não é propriamente uma coisa que arrefeça se eu não puder comer logo, sabem?)

Ok, estes foram só alguns dos exemplos parvos e ridículos que me lembro agora. Mas é isto, aparentemente na gravidez não dá para ter uma atitude positiva sem ter alguém que ache que é a sua missão de vida "explicar à grávida tontinha como a vida realmente é".

 

Uma coisa que aparentemente também não dá para ter é uma gravidez santa. Aparentemente não estamos autorizadas a dizer que tivemos uma gravidez que correu bem, sob pena de estarmos a criar expectativas falsas sobre a maternidade e estarmos a colocar pressão sobre as outras grávidas. Esta nova moda de que temos de "mostrar como as coisas realmente são" parece que quer impedir as pessoas a quem as coisas correm bem de falar. Eu tive uma boa gravidez e gostei de estar grávida, é isto que tenho a dizer sobre a minha experiência.

Confesso que, sendo uma gravidez não planeada e tendo como background o meu curso, eu parti para esta gravidez cheia de medo do que aí vinha. A sério, aterrorizei tudo o que havia para aterrorizar naquelas primeiras semanas, porque aquilo que eu antecipava eram as histórias de terror que toda a gente adora contar. Os milhares de artigos que hoje em dia andam por aí de "vamos falar da gravidez como ela realmente é" aparentemente não contemplam a minha gravidez, porque ela essencialmente correu bem e sem percalços. Não inchei, não tive nenhum percalço de saúde na gravidez e senti-me sempre bem no geral (excepto dois dias em que enjoei no primeiro trimestre e agora as últimas semanas de gravidez em que me custa mais mexer). E aparentemente estas histórias criam expectativas irreais nas pessoas e portanto não se pode falar delas.

Mais uma vez, não estou a dizer que todas as gravidezes vão ser como a minha, mas caramba, a minha experiência é uma possibilidade real e não uma expectativa irrealista.

 

Ah sim, e aparentemente não posso dizer que a gravidez não foi planeada, porque depois a rapariga vai saber e "o que é que ela vai pensar?". Não só a minha filha vai saber que não foi planeada, como vai saber tudo o que aconteceu depois, incluindo considerarmos viver com ela no T1 onde vivíamos quando engravidei e eventualmente acabarmos a comprar uma casa meio às três pancadas depois de decidirmos que não íamos comprar casa nos próximos dois anos. Ela não ter sido planeada faz parte do início da história dela e diz zero sobre o quanto gostamos dela. E acreditem, ela vai saber tudo isto e prometo que não a vamos traumatizar.

 

Agora, gente, vamos lá ver umas coisas que realmente dão jeito às grávidas da vossa vida:

  • não contem as piores histórias de partos às grávidas que conhecem excepto se elas vos pedirem (e mesmo assim filtrem alguns);
  • não considerem a vossa missão de vida "chamar a grávida à realidade" até porque vocês não têm uma bola de cristal e a vossa experiência não é a experiência de toda a gente;
  • dêem a mão à grávida quando ela vos disser que está a ser uma bosta em vez de relativizarem o problema e dizerem que tem é de se focar no bebé e vai tudo correr bem;
  • repitam o mantra "uma grávida não é uma incubadora" e portanto compreendam que apesar de querer o melhor para o bebé, às vezes a coisa custa horrores e há cedências que têm de se fazer em prol dela enquanto pessoa;
  • se a grávida quer muito que algo aconteça no futuro, ajudem-na a alcançar isso se puderem - se ela diz que mal pode esperar por comer X, apareçam-lhe em casa com isso quando o bebé nascer (e não aproveitem para ficar 4h a fazer sala, a menos que sejam convidados a isso), em vez de lhe dizer que está é tolinha do juízo e não vai acontecer;
  • não achem que por a vossa experiência ser uma, que todas as pessoas vão ter uma experiência igual.

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