Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

The Skin Game

Blogue português escrito por uma profissional de farmácia e dedicado à dermocosmética.

Notas soltas: negativismo na gravidez

Confesso que senti isto desde o início da gravidez, mas quis esperar até ao fim para perceber se isto era realmente uma coisa que acontecia. E portanto aqui estou eu, quase com 9 meses de gravidez em cima, a escrever este post.

 

Eu sabia que muita gente tem muita coisa a opinar no que diz respeito a gravidez e filhos. Acho que aquilo com que não contava era o negativismo constante em relação a tudo. Quando digo "tudo", acreditem que é mesmo tudo. Essencialmente não havia uma coisa positiva que eu tivesse a dizer sobre a gravidez que não resultasse em alguém dizer-me ou enviar-me mensagens em como eu estava era tolinha do juízo e que esperasse só para ver.

"Tive a sorte de que a minha acne desapareceu durante a gravidez, a minha pele está melhor na gravidez do que antes" --> "ahahaha espera só para ver o que te acontece depois do parto, as hormonas são loucas" (jurem, imaginem só que eu tinha uma licenciatura em farmácia e até sabia dessas coisas, mas obrigada pelo feedback)

"Por acaso não tive problemas com retenção de líquidos até agora, nunca inchei" --> "ahahahaha espera só pelo fim da gravidez e depois conversamos, isso é tudo muito giro agora, mas não te safas" (spoiler: 39 semanas no bucho e zero retenção de líquidos, obrigada e adeus)

"Quando acabar as mudanças da casa vou ter mais tempo livre e consigo voltar ao blogue" --> "ahahahaha vais ver a paciência que tens no fim da gravidez" (eu gosto de escrever, e efectivamente tenho mais tempo livre agora do que tinha nos meses em que estive na mudança de casa)

"Vou finalmente poder comer sushi depois da gravidez e está quase!" --> "ahahahahah até parece que vais ter tempo para fazer o que quer que seja, deixa-te de ilusões" (pessoas, eu não acho que vou ter muito tempo livre, mas ao mesmo tempo sei que há takeaway de sushi em mil sítios no Porto e aquilo não é propriamente uma coisa que arrefeça se eu não puder comer logo, sabem?)

Ok, estes foram só alguns dos exemplos parvos e ridículos que me lembro agora. Mas é isto, aparentemente na gravidez não dá para ter uma atitude positiva sem ter alguém que ache que é a sua missão de vida "explicar à grávida tontinha como a vida realmente é".

 

Uma coisa que aparentemente também não dá para ter é uma gravidez santa. Aparentemente não estamos autorizadas a dizer que tivemos uma gravidez que correu bem, sob pena de estarmos a criar expectativas falsas sobre a maternidade e estarmos a colocar pressão sobre as outras grávidas. Esta nova moda de que temos de "mostrar como as coisas realmente são" parece que quer impedir as pessoas a quem as coisas correm bem de falar. Eu tive uma boa gravidez e gostei de estar grávida, é isto que tenho a dizer sobre a minha experiência.

Confesso que, sendo uma gravidez não planeada e tendo como background o meu curso, eu parti para esta gravidez cheia de medo do que aí vinha. A sério, aterrorizei tudo o que havia para aterrorizar naquelas primeiras semanas, porque aquilo que eu antecipava eram as histórias de terror que toda a gente adora contar. Os milhares de artigos que hoje em dia andam por aí de "vamos falar da gravidez como ela realmente é" aparentemente não contemplam a minha gravidez, porque ela essencialmente correu bem e sem percalços. Não inchei, não tive nenhum percalço de saúde na gravidez e senti-me sempre bem no geral (excepto dois dias em que enjoei no primeiro trimestre e agora as últimas semanas de gravidez em que me custa mais mexer). E aparentemente estas histórias criam expectativas irreais nas pessoas e portanto não se pode falar delas.

Mais uma vez, não estou a dizer que todas as gravidezes vão ser como a minha, mas caramba, a minha experiência é uma possibilidade real e não uma expectativa irrealista.

 

Ah sim, e aparentemente não posso dizer que a gravidez não foi planeada, porque depois a rapariga vai saber e "o que é que ela vai pensar?". Não só a minha filha vai saber que não foi planeada, como vai saber tudo o que aconteceu depois, incluindo considerarmos viver com ela no T1 onde vivíamos quando engravidei e eventualmente acabarmos a comprar uma casa meio às três pancadas depois de decidirmos que não íamos comprar casa nos próximos dois anos. Ela não ter sido planeada faz parte do início da história dela e diz zero sobre o quanto gostamos dela. E acreditem, ela vai saber tudo isto e prometo que não a vamos traumatizar.

 

Agora, gente, vamos lá ver umas coisas que realmente dão jeito às grávidas da vossa vida:

  • não contem as piores histórias de partos às grávidas que conhecem excepto se elas vos pedirem (e mesmo assim filtrem alguns);
  • não considerem a vossa missão de vida "chamar a grávida à realidade" até porque vocês não têm uma bola de cristal e a vossa experiência não é a experiência de toda a gente;
  • dêem a mão à grávida quando ela vos disser que está a ser uma bosta em vez de relativizarem o problema e dizerem que tem é de se focar no bebé e vai tudo correr bem;
  • repitam o mantra "uma grávida não é uma incubadora" e portanto compreendam que apesar de querer o melhor para o bebé, às vezes a coisa custa horrores e há cedências que têm de se fazer em prol dela enquanto pessoa;
  • se a grávida quer muito que algo aconteça no futuro, ajudem-na a alcançar isso se puderem - se ela diz que mal pode esperar por comer X, apareçam-lhe em casa com isso quando o bebé nascer (e não aproveitem para ficar 4h a fazer sala, a menos que sejam convidados a isso), em vez de lhe dizer que está é tolinha do juízo e não vai acontecer;
  • não achem que por a vossa experiência ser uma, que todas as pessoas vão ter uma experiência igual.

Dermatite atópica em bebés e adultos

A dermatite atópica é uma presença frequente na minha vida desde sempre, desde ter uma pele que não tolerava praticamente nenhum cosmético em bebé até ter grandes crises nas fases de exames de faculdade a andar agora na gravidez com locais novos a ficarem em crise. Como tenho lido um pouco mais sobre o assunto por causa disto e do receio que a minha filha também vá sofrer do mesmo, achei que era boa altura para escrever sobre dermatite atópica (ou eczema) e o que realmente parece resultar.

 

Dermatite atópica

A dermatite atópica (DA) é uma doença inflamatória crónica da pele que é caracterizada por ciclos de crise e remissão e não é contagiosa, sendo que esta doença está bastante ligada a uma componente genética (o risco de uma criança desenvolver a doença é de 30% no caso de um dos pais sofrer de DA e de 70% se ambos os progenitores tiverem). Os sintomas mais comuns desta patologia implicam pele seca a muito seca, comichão, descamação, vermelhidão e pele inflamada. Estima-se que esta doença afecta cerca de 3% dos adultos e 15% das crianças em países desenvolvidos, com tendência a aumentar, e está intimamente ligada a outras patologias alérgicas como a rinite, asma e alergias alimentares. 

Na DA, existe um ciclo muito demarcado nas crises, que começa habitualmente com a diminuição da função barreira da pele, permitindo maior entrada de alergenos e outros agentes irritantes que vão levar a inflamação e comichão, que por sua vez vão diminuir ainda mais a função barreira. Assim sendo, o ideal é quebrar o ciclo vicioso e tentar fazê-lo em todos os passos para garantir uma maior qualidade de vida e uma remissão mais rápida.

 

Abordagens ao tratamento da dermatite atópica

Existem várias abordagens à dermatite atópica e a grande maioria acaba por estar pouco estudada ou com estudos maioritariamente irrelevantes. Contudo, vamos vê-las uma a uma:

  • aplicação diária de hidratantes - esta é uma das mais relevantes e uma das que comprovadamente apresenta benefícios reais na DA. O ideal é optar por um hidratante específico para a pele atópica, o que significa que habitualmente é um creme mais espesso ou bálsamo, sem fragrância e com uma fórmula que minimiza a quantidade de potenciais alergenos. Quanto a ingredientes-estrela, não existem estudos não enviesados que tenham conseguido comprovar que um ingrediente é superior a outro, mas no geral tudo parece apontar para que se escolham fórmulas que contenham ureia, glicerina, ceramidas e ácido glicirretínico. A aveia parece resultar, mas também tem menos estudos efectuados.
  • banhos emolientes - estes banhos emolientes passam pela colocação de um produto na água e consequente imersão da pele nessa mistura. Contudo, os estudos indicam que não existem benefícios claros nesta prática, sendo que geralmente acabo por não a recomendar.
  • higiene não deslipidante - é muito frequente ver pessoas que se preocupam em ter um creme hidratante, mas depois na higiene usam um gel de banho qualquer porque depois o creme faz o resto. Contudo, os estudos apontam no sentido desta mesma higiene cumprir os mesmos pontos que a hidratação. Assim, deve-se optar por um produto preferencialmente em creme ou óleo, sem fragrância e de preferência formulado para pele atópica.
  • medicação - pode ser tópica ou oral e deve ser sempre acompanhada e prescrita por um médico. Beneficia na mesma da aplicação do hidratante, havendo estudos claros de que a taxa de sucesso é maior nos pacientes que combinam ambas.
  • probióticos - têm surgido vários estudos no sentido de que pode haver um benefício claro na suplementação com probióticos na dermatite atópica. Contudo, os estudos são ainda pouco claros no que diz respeito a qual a melhor estirpe a usar, doses e resultados claros, por isso esta é ainda uma área em desenvolvimento. Contudo, é uma clara possibilidade e nos próximos anos deveremos assistir a um desenrolar interessante nesta área.
  • evitar potenciais alergenos durante a gravidez e aleitamento - ao contrário do que tem sido proclamado por muitos, evitar certos alimentos durante a gravidez não só não reduz o risco de desenvolver dermatite atópica, como na verdade parece aumentá-lo. Alimentos como ovos, frutos secos, leite de vaca e outros que sejam habitualmente associados a alergias não devem ser evitados por este motivo e até é aconselhável que sejam consumidos de forma a expôr a criança aos potenciais alergenos.

 

Bebés em risco de desenvolver dermatite atópica

Esta é uma área complexa e falo não só por experiência própria, mas também na área científica. Como mãe, já perdi a conta ao número de pessoas que me recomendaram não usar qualquer tipo de hidratante no bebé nos primeiros meses. Por outro lado, também já tive outras tantas pessoas a dizerem-me que se eu tinha pele atópica em bebé e mantenho essa condição em adulta, então tenho de começar logo a usar uma linha de pele atópica na bebé desde que ela nasce. Enquanto profissional, situo-me no meio destas duas posturas, sendo da opinião de que se deve colocar um hidratante a partir do nascimento, mas de uma linha normal, e passo a explicar porquê.

A grande maioria dos estudos feitos em bebés e crianças com DA incluem poucos voluntários e são habitualmente desenhados para validar a utilização de uma gama específica que foi formulada para pele atópica. Assim, é frequente verem-se estudos que indicam que a linha contendo o ingrediente patenteado XYZ teve melhores resultados em crianças com dermatite atópica do que um hidratante normal. Contudo, alguns estudos recentes e bem desenhados puseram à prova a parte que me interessava mais, que era pura e simplesmente a aplicação de um hidratante num recém-nascido com probabilidade de desenvolver DA. Estes estudos concluíram globalmente e com boa margem de certezas que a aplicação diária de um hidratante normal em recém-nascidos de termo previne o aparecimento da DA.

Em relação a escolher ou não uma gama formulada para pele atópica ou uma linha normal nos casos em que apenas existe a probabilidade da criança desenvolver DA, explico-vos o porquê. Uma das teorias já comprovadas da dermatite atópica prende-se com o excesso de higiene e a não exposição dos bebés a alergenos. Esta exposição limitada parece estar a levar a um aumento das crianças com DA, pelo que a exposição precoce a alergenos acaba por ser positiva para o desenrolar da doença. Isto significa que aconselho sempre as mães de bebés potencialmente atópicos a utilizarem produtos com uma fragrância leve (também não exagerem com uma linha super perfumada), mas a não partirem para as linhas de pele atópica sem diagnóstico feito.

 

Melhores produtos para pele atópica

Não existem diferenças nos produtos a usar dependendo da idade, pelo que qualquer produto formulado para pele atópica pode ser usado de forma segura a partir dos 3 meses de idade (alguns a partir do nascimento desde que o bebé seja de termo) sem qualquer limite máximo de idade.

pele atopica-1.PNG

pele atopica-2.PNG

Coloquei aqui os meus produtos e gamas preferidos, apenas com algumas adendas em termos de imagem: a A-Derma Exomega passou a chamar-se Exomega Control e tem fórmulas novas, a Nutratopic da ISDIN mudou completamente de imagem, mas acho que ainda não se encontra por cá (se encontrarem as embalagens antigas é normalíssimo, mas não quis deixar o post à beira de ficar instantaneamente desactualizado).

- La Roche-Posay Lipikar: pode ser usada desde o nascimento em bebés de termos e tem um produto que adoro - o stick. A comichão é das coisas mais incómodas da dermatite atópica e o stick permite "coçar" a área enquanto na verdade estamos a reparar a barreira cutânea em vez de a destruir.

- ISDIN Nutratopic Pro-AMP: a linha que recomendo em casos mais complicados de resolver, tem um hidratante especialmente formulado para o rosto e dois hidratantes de corpo diferentes (a loção para uso diário e o creme para crises).

- A-Derma Exomega Control: para quem gosta de recorrer a fórmulas mais baseadas em ingredientes naturais, é baseada em aveia. Tem uma boa selecção de texturas diferentes que permitem adaptar aos gostos de cada um, com preços bastante simpáticos também.

- Bioderma Atoderm Intensive: a gama que recomendo em peles que não são particularmente complicadas, para uso diário. Os tamanhos grandes tornam-na muito prática para quem tem de usar os produtos diariamente.

- Lutsine Xeramance Plus: o que encontrei até agora com melhor efeito anti-prurido, é particularmente útil para ter em caso de crises.

- Ducray Dexyane Med: para quem, como eu, tem apenas lesões localizadas (no meu caso cotovelos e agora tornozelos na gravidez), o Dexyane Med e perfeito para controlar as zonas afectadas sem precisar de fazer um investimento enorme, com efeitos desde a primeira aplicação.

Cosméticos naturais NÃO são melhores

Desculpem estragar logo a diversão de um título ambíguo, mas este artigo serve precisamente para desde logo estabelecermos bem a ideia do post: os cosméticos naturais não têm qualquer vantagem quando comparados com cosméticos que incluem ingredientes sintéticos.

Mas como eu dizer isto não chega, vamos ponto a ponto tentar desmistificar todas as pré-concepções que existem relacionadas com esta temática. Sintam-se à vontade para fazer questões sobre o assunto e para apontar outras razões pelas quais escolheriam produtos naturais - posso sempre editar este post e acrescentar mais informação.

 

Sintético versus natural

 

Apesar da dualidade ser frequentemente apresentada como "natural versus químico", esta apresentação está errada. Porquê? Porque todos os ingredientes têm uma estrutura química, uma vez que são compostos por átomos. Portanto a dualidade aqui deve ser apresentada em relação à origem do ingrediente: foi extraído de uma fonte natural sem alteração da sua composição ou foi submetido a alguma modificação? Assim teremos um ingrediente natural ou sintético (ou semi-sintético, porque muitos ingredientes são obtidos através de ligeiras modificações a ingredientes naturais).

E o ponto mais interessante aqui é: isso interessa para quê? A resposta é "para nada" a não ser para determinar a sua origem. Vejamos a seguinte imagem de uma mistura de ingredientes cosméticos:

estruturas químicas.PNG

Conseguem identificar os de origem natural e os de origem sintética? Bem, o vosso corpo também não, porque a origem não interessa no que diz respeito à acção do produto. Interessa sim onde aqueles carbonos e oxigénios vão encaixar, e não de onde vieram. Não existe NADA no nosso corpo capaz de reconhecer se um ingrediente é de origem natural ou sintética e reagir de acordo com esse critério.

(apenas um aparte: se estiverem tentados a dizer que o último de certeza que é sintético porque "olhem só para aquela monstruosidade de molécula", aquilo é colagénio tipo III que é naturalmente produzido nos humanos a nível da derme e é o que vos dá elasticidade à pele e evita rugas)

 

Composição de ingredientes naturais

 

Uma razão que ouço frequentemente apontada como motivo para utilizar cosméticos naturais está relacionada com a simplicidade das fórmulas. É comum as pessoas olharem para uma lista INCI (lista de ingredientes de um cosmético, que legalmente tem sempre de vir apresentada na embalagem do produto) e terem medo de listas enormes com nomes estranhos.

É muito mais pacífico para as pessoas olharem para uma lista de ingredientes e lerem algo equivalente a "Água, Óleo de Sésamo, Óleo de Rosa Mosqueta, Óleo de Tangerina" do que lerem uma série de nomes desconhecidos e potencialmente assustadores. Contudo, vamos atentar na seguinte imagem:

kiwi composição.jpg

Isto é a composição de um kiwi. O facto de uma coisa ser natural não implica que não seja formada por uma amálgama de ingredientes de nomes estranhos, só significa que temos um nome que habitualmente atribuímos a esse conjunto de coisas e que, por ser tão comum, já não nos faz confusão. Neste caso chamamos-lhe kiwi, noutros casos chamamos-lhes outra coisa qualquer, como óleo de tangerina. E falando de óleo de tangerina, vamos olhar também para mais uma imagem:

composição óleo tangerina.PNG

Esta tabela potencialmente esquisita foi retirada de um artigo científico que estudou a composição de óleo de tangerina para identificar os vários compostos do dito óleo ao longo do ano. Neste caso identificaram 55 compostos diferentes nos óleos analisados. Podem procurar pelo artigo pesquisando o nome "Composition and Seasonal Variation of the Essential Oils from Two Mandarin Cultivars of Southern Brazil". Isto apenas para referir que, se todos os ingredientes que compõem o dito óleo de tangerina fossem listados como ingredientes, a lista seria absolutamente gigante e ultrapassaria em larga escala o tamanho de uma de compostos sintéticos. Apenas como referência, o normal para um óleo natural é ter entre 20 e 80 compostos diferentes, e todos eles têm nomes estranhos porque são os nomes químicos.

 

É normal haver um certo medo associado a conceitos desconhecidos, mas as listas de ingredientes não são para serem lidas ou analisadas por quem não sabe o que está a ler. E quando me refiro a "quem não sabe o que está a ler", incluo-me nesse grupo porque não sou cosmetologista nem formuladora, e as minúcias das fórmulas passam-me frequentemente ao lado. Utilizem apenas essas listas caso tenham uma alergia identificada a algum ingrediente.

 

Alergias e toxicidade

 

Falando de alergias, passemos a outro tópico frequentemente usado como argumento para optar por ingredientes naturais, que é o medo de desenvolver alergias ou de que os ingredientes sintéticos sejam tóxicos. Tal como já falámos no início, não há nada no nosso corpo que seja capaz de identificar uma substância como natural ou sintética, portanto os casos de alergias e toxicidade não vão estar minimamente relacionados com este factor.

Se pensarem na natureza, alguns dos venenos mais potentes foram criados naturalmente, seja por plantas ou por animais. Conseguem encontrar arsénico no caroço de um pêssego e se comerem um peixe-balão mal preparado podem morrer no espaço de poucos minutos porque os vossos músculos deixam de trabalhar.

Também no caso de alergias isto é uma questão comum, vejo por exemplo imensos pais a optarem por cosméticos naturais para os bebés com medo das alergias que eles poderão desenvolver. Em relação a isto, mais uma tabela:

contact dermatitis plants.PNG

Esta tabela foi retirada do artigo "Allergic contact dermatitis to plant extracts in patients with cosmetic dermatitis" e essencialmente lista alguns extractos de plantas que habitualmente são utilizados em cosméticos, citando se estão habitualmente associados a números significativos de dermatite de contacto (no fundo a uma reacção negativa exacerbada da pele ao cosmético após aplicação). Como podem verificar, a dermatite de contacto provocada por extractos naturais é uma situação comum, tal como acontece com ingredientes sintéticos.

Além disso, podem ainda pensar no facto de, se cada extracto natural tiver uma média de 30 compostos, então aumenta-se exponencialmente a quantidade de substâncias a que uma pessoa pode ser alérgica, já para não falar no facto da composição dos óleos ser muito variável e portanto ser impossível garantir o que vai estar realmente lá no meio.

Isto serve apenas para mostrar que não é pela origem que uma pessoa vai ser mais ou menos alérgica a um ingrediente. Claro que uma pessoa em particular pode ser alérgica a um sem-número de ingredientes sintéticos e dar-se habitualmente bem com ingredientes naturais, mas o contrário também acontece. O que não pode acontecer é a extrapolação de uma situação em que uma ou algumas pessoas verificaram que tinham mais tendência para fazer alergia a ingredientes sintéticos e achar que isso significa que os ingredientes naturais é que são seguros.

 

Entrada de substâncias no nosso corpo

 

Há uns tempos andava por aí a correr uma imagem em tudo o que era redes sociais que citava que qualquer substância que aplicássemos na nossa pele entrava na corrente sanguínea em 26 segundos. Ora, além disto de haver penetração de tudo em 26 segundos ser o sonho de todas as empresas de medicamentos, é também falso.

Primeiro, porque a diferença entre um cosmético e um medicamento é que o medicamento atinge a corrente sanguínea e o cosmético não. Caso haja presença dos compostos na corrente sanguínea o produto é identificado como medicamento e segue os trâmites legais para ser ou não autorizado como tal. Nunca um cosmético atingirá a corrente sanguínea.

Em segundo lugar, referi em cima que essa penetração na corrente sanguínea em 26 segundos era o sonho de qualquer empresa de medicamentos e é um facto. Porquê? Porque apesar de frequentemente a nossa pele ser descrita como uma esponja, ela de esponja não tem nada. Vamos voltar às nossas aulas de primária sobre a pele ser o nosso maior órgão e rever as principais funções da pele: barreira contra o meio externo, protecção contra traumas mecânicos, regulação da temperatura... (sim, eu pus reticências porque não me lembro de todas e vou provavelmente levar porrada da minha mãe, que é professora do 1.º ciclo). Mas vamos àquela que importa aqui, que é a de barreira contra o meio externo.

A pele não é totalmente impermeável, mas também não deixa passar tudo o que lhe aparece pela frente. Para perceber isto, basta pensarmos em situações simples do dia a dia. Visualizem a água, que tem uma molécula com apenas dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio (muito, muito mais pequena dos que as moléculas que vos mostrei em cima, portanto). Se a nossa pele fosse uma esponja, nós não precisávamos de beber água, bastava tomarmos banho e a água entrava assim, até porque a molécula é minúscula e passava bem através dela. Mas não, apesar de ficarmos um bocadinho armados em uvas-passa se ficarmos uma hora num banho de imersão, a água não nos matou a sede. Isto porque, apesar de contacto durante mais de uma hora com uma molécula minúscula, ela apenas conseguiu atravessar algumas das primeiras camadas e ficou-se por lá, daí o aspecto enrugado da pele.

skinstruc_01.jpg

 

Então para onde vão os cremes que colocamos na pele? Eles tentam atingir a maior profundidade possível dentro da pele e depois são removidos com a descamação natural da pele. Não entram no organismo nem em nenhum sistema de circulação de substâncias, o que significa que não atingem órgãos que não sejam a própria pele.

 

Razões éticas

 

Infelizmente, os cosméticos de origem natural não são necessariamente produtos mais éticos. E falar de ética é sempre complexo, porque as abordagens a este conceito vão muitas vezes de encontro a terminologias diferentes.

Muitos vegans optam por cosméticos naturais para tentar evitar testes em animais ou ingredientes de origem animal. Contudo, ingredientes naturais podem ser de origem animal (a lanolina, por exemplo, vem das ovelhas) e a origem dos ingredientes não dita se foram ou não testados em animais.

Também pode ser uma tentativa de abordagem contra as grandes empresas. Por outro lado, não só muitas empresas e grupos produzem cosméticos naturais porque é uma exigência do mercado, como muitas empresas pequenas que fazem estes produtos são compradas ou parcialmente compradas por grandes multinacionais. Por outro lado, grandes empresas frequentemente já têm muitos programas éticos, ecológicos e de comércio justo estabelecidos e em pleno funcionamento.

 

Conclusão

 

Escolher produtos apenas com ingredientes naturais é uma opção válida, contudo convém fazer uma escolha informada e não apenas baseada em medos infundados e informações erradas. E, como sempre, escolher um cosmético "porque gosto dele" é sempre uma boa razão.

Mala de maternidade - mãe e bebé

dmpm_bioderma_mala_maternidade.jpg

 

Eu prometo que este blogue não vai ficar inteiramente dedicado a questões de maternidade, mas dêem-me a folga de que efectivamente estou grávida e portanto há coisas agora a acontecer relacionadas com bebés. E como posts destes foram o que mais li em relação a bebés pela net fora, achei que valia a pena trazer-vos a minha versão da coisa.

 

A primeira coisa a ter em conta é que vos vão fornecer uma lista de coisas que devem levar, considerando sempre que irão ter duas malas: uma para vocês (nós óptámos por pôr lá também as coisas do Nelson, porque ele vai ficar connosco) e uma para o bebé. Esta lista vai variar consoante cada hospital, portanto aconselho-vos que a sigam. Tudo o que eu escrever aqui vai ser baseado na lista que o meu hospital me forneceu e nas coisas extra que decidi acrescentar por vontade própria. No nosso caso optámos por usar um trolley de viagem normal para as coisas dos adultos e a mala de maternidade da Bioderma para as coisas da bebé.

 

Mala da mãe

  • 3 camisas de noite ou pijamas - por conselho da enfermeira do curso de preparação para o parto, optei por camisas de dormir com abertura à frente. Por duas razões principais: não sei se vou ter uma cesariana e não quero costuras das calças a fazer força em cima de uma hipotética cicatriz, e porque as enfermeiras precisam de avaliar frequentemente como as coisas estão a evoluir no pós parto e precisam de um "acesso rápido".
  • discos de amamentação - substituídos a conselho das enfermeiras por conchas de arejamento, porque estas últimas permitem uma cicatrização ao ar e evitam a maceração da pele (e todo o problema que é ter pele a cicatrizar de encontro a um tecido que depois removemos - leva-se sempre mais do que se devia).
  • produtos de higiene - escova e pasta de dentes, gel de banho, champô. Coloquei-os numa bolsa impermeável para poder levar para o chuveiro.
  • chinelos de quarto e de duche.
  • cuecas descartáveis e pensos higiénicos - mais uma vez, a conselho da enfermeira, optei por trocar as cuecas descartáveis por umas lindas e sexy fraldas absolutamente gigantes. Nada como uma gravidez para uma pessoa perder todo o amor às coisas bonitas e só querer aquilo que garante que não vão acontecer tragédias nocturnas. E sim, vai com pensos higiénicos massivos em cima, que só fralda não chega.
  • soutiens de amamentação e creme para mamilos - aqui confesso que ainda não decidi investir dinheiro. Quero esperar pela subida do leite para ver o que acontece e só depois é que vou pensar nisso. Entretanto tive a sorte de me darem 3 ou 4 soutiens de amamentação que neste momento me servem e é isso que vou levar, e igual com o creme (tenho ali um resto de Purelan, mas acho que depois disso penso na lanolina da Lansinoh).
  • acréscimo: produtos cosméticos - uma coisa que me aconselharam imenso são bálsamos de lábios e sprays hidratantes no caso de parto vaginal. Portanto optei por colocar o Nutraisdin Balm, o Sesderma C-Vit Mist e a água termal da Uriage no meu saco. Tudo pequeno e prático, fácil de usar e de transportar. Além disso, coloquei também o Sesderma Hydraderm Hyal creme e o Sesderma Sensyses desmaquilhante, para garantir que tinha um bom hidratante e um produto de limpeza prático.
  • acréscimo: maquilhagem - sim, eu estou a sentir umas dezenas de pares de olhos a revirar aqui e agora, deixem lá que já levei com eles ao vivo. Não faço ideia se vou usar isto ou não, mas considerando que não sei quão exausta vou estar e não quero ser daquelas pessoas que acabam a odiar as fotos do pós-parto porque não se reconhecem nelas, levo maquilhagem comigo. Nunca irei perceber qual é o problema de uma pessoa querer gostar de se ver naquelas que vão ser fotos vistas e revistas ao longo de décadas. No meu caso levo corrector de olheiras, eyeliner e máscara de pestanas, só para garantir que se sentir que preciso de uma ajuda extra, tenho-a. "Ai que vais estar é focada na tua bebé e não queres saber disso para nada" - não sabem se vai ser assim e eu também não. E como sou uma pessoa prevenida, levo as coisas e ninguém tem nada a ver com o assunto. Nota-se um certo ressabiamento? Haviam de me ver a falar disto ao vivo, nota-se muito mais.
  • acréscimo - roupão fino, porque não me apetece ter de receber visitas em preparos de apenas ter uma camisa de noite.
  • faixa pós parto.

 

Mala da bebé

  • 4 conjuntos interiores+exteriores - tudo calças com pés e bodies, os exteriores com pés também e o mais fácil de abrir possível. Optei por separar as mudas de roupa usando sacos de 3L com fecho, com tudo escrito.
  • Manta - colocámos na manta a primeira muda de roupa, juntamente com uma fralda, um casaco e um gorro, para no dia do parto só termos de pegar no conjunto e levar para a sala de partos.
  • Interiores extra - porque acidentes acontecem e escusa-se de desfazer os conjuntos para ir buscar uma peça ao saco.
  • Cosméticos - a conselho das enfermeiras, vamos levar os produtos de pele que contamos usar na bebé. Assim, se houver alguma alergia, estamos no melhor sítio possível para despistar problemas. No nosso caso optámos pela linha da ABCDerm da Bioderma porque o hidratante é formulado para prevenção de atopia. Iremos apenas usar gel de banho e loção hidratante no início, por isso são os dois produtos que vamos levar. Além disso, vamos levar o Avène Cicalfate como creme de muda de fralda, mas provavelmente não o iremos usar a não ser hipoteticamente uma vez por dia, mas logo veremos como corre.
  • Fraldas - optámos por comprar apenas três pacotes tamanho 1, e comprámos de duas marcas diferentes para tentar testar a pele da bebé (Dodot Sensitive e Pingo Doce). Eu em pequena tinha imensos problemas de pele e de alergias e não quisemos arriscar comprar grandes quantidades que depois podiam não ser utilizadas se ela sair à mãe (é a cara chapada do pai pelo que já vimos nas ecografias, mas aposto que vai conseguir ir buscar as minhas partes más).
  • 3 fraldas de pano.
  • Toalhitas - optámos pelas WaterWipes, mas só tencionamos usar fora de casa (ou em dias em que já temos os olhos tortos de sono e não conseguimos lidar com coisas complexas). Em casa iremos usar compressas de tecido não tecido e água.
  • Kit de higiene - optámos pelo da Avent, bem como o resto dos acessórios de puericultura.