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The Skin Game

Blogue português escrito por uma profissional de farmácia e dedicado à dermocosmética.

Transferência de produtos entre embalagens

Existem diversos motivos que nos levam a transferir um produto da sua embalagem original para outra embalagem, entre eles o transporte de produtos em férias/viagens (que geralmente exige embalagens mais pequenas), ou o facto de não nos darmos bem com a embalagem original, etc. Só que a verdade é que existe alguma ciência nisto de transferir substâncias entre embalagens. Perdoem-me este post que é quase um tratado, mas prometo que vão ficar a saber algumas coisas importantes se o lerem todo.

 

Embalagem sem resíduos de outros produtos e limpa

 

Esta é lógica, certo? Só que temos de ver o que é o conceito de limpo neste caso... geralmente são produtos que vão ser utilizados na pele, certo? Aquilo que vos aconselho é que lavem muito bem a embalagem, eliminando resíduos de óleos e afins que pudessem estar contidos na fórmula anterior. Depois, passem muito bem por água para eliminar resíduos do produto que usaram na lavagem e, por fim, deitem um pouco de álcool, assegurem-se que atinge todos os pontos da embalagem e deixem evaporar. Uma vez que apenas o contacto prolongado com álcool danifica alguns tipos de plástico (nomeadamente o 1, 3, 6 e 7) e não danifica o vidro, esta lavagem rápida com álcool não deverá alterar a embalagem.

Nota: Na desinfecção do que quer que seja utilizando álcool, usem sempre, sempre álcool a 70º ou 70% (geralmente o da embalagem amarela) porque é o único que funciona como desinfectante. O álcool a 96º (que geralmente tem embalagem azul) não é um antimicrobiano mais poderoso só por ser mais concentrado, na verdade este álcool é realmente bom é para assar chouriço e pouco mais. Resumindo o mecanismo de acção, o álcool torna a membrana das bactérias permeável à água, fazendo com que entre água dentro delas e elas rebentem. Para isso é preciso que haja água suficiente para elas rebentarem, e isso só existe no álcool a 70º (em que 30% é água, ao contrário dos 4% do álcool a 96º).


Embalagem nova feita de material igual à original

 

Eu bem sei que esta não é fácil, mas é uma que realmente exige atenção. Uma pequena historinha relativamente a este facto: uma vez abri uma embalagem de amostra de um óleo e, como não o usei todo, deitei o que sobrou num potinho da TBS. Uns dias depois, quando fui limpar a casa de banho, notei que havia óleo por todo o lado à volta desse potinho. O que tinha acontecido? O óleo tinha corroído o plástico, tinha aberto um furo e tinha-se espalhado pela superfície.

Pronto, isto apenas para vos explicar que é um cuidado realmente necessário. O problema maior aqui é que, ao contrário do que aconteceu no meu caso, muitas vezes as alterações da embalagem e/ou do produto nela contido não são visíveis, ou seja, quem olhar para o produto até pensa que não houve qualquer alteração e pode continuar a utilizá-lo. Só que... o material da nova embalagem pode reagir com o produto que lá pusemos dentro e pode inactivar os compostos. Ou pior, pode modificá-los de tal forma que podem tornar-se prejudiciais à pele. E esta alteração pode dar-se em menos de 24h, por isso mesmo que pensem que é só para levar numa viagem de 2 dias, tenham cuidado.

Os produtos cosméticos são geralmente embalados no material mais adequado àquele produto, ou seja, num material que não reage com ele. Portanto aqui a regra é olhar para a embalagem e ver o que temos. Se a embalagem for de vidro, a forma mais segura é arranjar uma outra embalagem de vidro. Se for de plástico, já dá mais trabalho. Certamente conhecem aqueles símbolos no fundo das embalagens de plástico que geralmente são usados para fazer a separação e reciclagem. Pois são mesmo esses números que vamos utilizar, pois eles correspondem ao tipo de plástico que é utilizado na embalagem. Assim, os produtos contidos em embalagens com o símbolo 1, têm de ser colocados noutras embalagens que apresentem o mesmo símbolo e por aí fora.


Opacos vão para opacos

 

Já acabámos? Não, ainda há mais uma questão a ter em conta: alguns produtos são inactivados pela luz (o exemplo mais comum é o da Vitamina C, que é transformada pela luz e perde a sua actividade). Estes produtos são geralmente embalados em materiais opacos de modo a evitar a degradação por parte da luz. Por isso, por prevenção, todos os produtos que estejam embalados em materiais opacos ou vidro acastanhado (que é o chamado vidro âmbar tipo III e evita que a radiação chegue ao produto e o altere), têm de ser transferidos para materiais semelhantes. Bem sei que muitas vezes não é possível encontrar estes materiais opacos com facilidade, por isso deixo-vos um truque que se aprende em farmácia: quando não há material que proteja da luz, enrola-se a embalagem em papel de alumínio.


Nunca misturar produtos

 

Esta é uma recomendação final, que sei que muita gente opta por não cumprir, mas se eu escrever isto, pelo menos sei que fiz a minha parte ao avisar: não misturem produtos. Misturar dois tons da mesma base, por exemplo, não deve ter qualquer problema porque o que geralmente muda é apenas a quantidade de pigmento ou o tipo de pigmento, mas misturar dois produtos diferentes é decididamente um NÃO.

Imaginem apenas que se um óleo conseguiu corroer completamente o plástico do potinho TBS em poucos dias, imaginem o que dois produtos com ingredientes activos podem fazer entre si... Desde formarem substâncias novas por reagirem entre si (que podem ser prejudiciais para a vossa pele), a inactivarem-se mutuamente ou mesmo a nível de contaminação microbiana, porque os conservantes de um produto estão preparados para proteger aquele produto, não estão preparados para proteger uma mistura daquele produto e outra coisa qualquer. Se os cosmetologistas já têm dificuldades em misturar substâncias e fazer com que tudo corra bem (e eles sabem o que estão a misturar e quais as suas propriedades e com que substâncias aquele material reage), o comum humano terá certamente muitos mais problemas ao fazê-lo.