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The Skin Game

Blogue português escrito por uma profissional de farmácia e dedicado à dermocosmética.

O que pagamos num cosmético

Ando há algum tempo para escrever este post porque muitas vezes deparo-me com questões como "se é caro é porque é bom" ou "se é barato é porque não presta" ou "é tão caro, conheço um do LIDL que faz o mesmo e custa 2€" e outros semelhantes. E a realidade é que nada disto é necessariamente verdade.

 

O que influencia o preço dos cosméticos

 

Ingredientes - embora esta seja uma fatia normalmente pequena, o custo dos ingredientes influencia grandemente o preço final. Não só o ingrediente em si como as patentes, o processo pelo qual são obtidos ou se estão sujeitos a algum tipo de certificação.

Características organolépticas (textura, cor, cheiro) - uma vez li uma entrevista onde alguém dizia que cerca de 80% do desenvolvimento de fórmulas de marcas de luxo era passado na textura do produto. Considerando que muita gente compra os produtos porque gostam da sensação de aplicação na pele e é uma das partes mais complicadas da formulação, é um peso muito significativo de uma grande parte dos produtos disponíveis

Marca - há marcas pelas quais se paga pelo privilégio de as poder comprar, principalmente a nível de cosmética elevada e marcas associadas a grandes designers

Embalagem - o facto de se ter uma embalagem genérica ou ter uma embalagem mais premium influencia, não só a nível do material usado mas também do próprio design de embalagem. Embalagens mais bonitas são geralmente bem mais caras

Investigação/formulação - a formulação do produto também se paga e há uma grande diferença entre fazer uma cópia de um outro produto ou inovar realmente na fórmula.

Marketing e design -  o design dos produto e todas as campanhas: publicidade, descontos, embaixadores, patrocínios, ofertas de brindes e produtos.

Salários dos funcionários - pela mesma razão que mandar vir coisas da China é muito barato, comprar produtos em empresas que pagam mal aos funcionários também é mais barato. Pagar salários justos e ter o número de funcionários necessário às tarefas implica ter de subir consideravelmente os preços. 

Infra-estruturas -  todo o processo de produção implica um local onde fazer o produto

Intermediários - quantos mais intermediários, mais os custos aumentam

Lucro da empresa - ninguém faz uma empresa para ter prejuízo, portanto os preços têm sempre em conta a margem de lucro

Empresa individual ou parte de um grupo - quando as empresas fazem partes de grandes grupos muitas vezes o pessoal, infra-estruturas, equipa de desenvolvimento e investigação são partilhados, permitindo criar gamas com preços mais baixos que mantêm a qualidade. Isto torna-se mais difícil em empresas pequenas, sendo a principal razão pela qual empresas pequenas geralmente produzem marcas caras.

 

Olhando para alguns casos

 

The Ordinary - parte de um grupo que já tinha uma marca elevada e uma intermédia, a The Ordinary investiu nos ingredientes. As fórmulas são simples, as texturas pouco agradáveis, as embalagens simples e praticamente não apostam em marketing tirando algumas bloggers-chave. Isto resultou em produtos que são eficazes e extremamente baratos (5-15€), mas que não vão além do conceito de "uma função por produto". Vale a pena? Sim, desde que a experiência da aplicação não seja importante.

Chanel - uma marca de uma grande casa de moda, é uma daquelas que se considera uma mais valia na vida das pessoas, pagando-se grandemente pelo privilégio de se terem os produtos em casa. A eficácia é questionável, principalmente tendo em conta o preço e vive principalmente da textura e da fragrância (para que é que é necessário que um creme cheire a perfume é coisa que me ultrapassa e é inútil e propiciador de crises alérgicas). Vale a pena? Não, a menos que queiramos mesmo um produto da marca como item de decoração.

Sunday Riley - uma marca cara que vive dos ingredientes caros/certificados e das fórmulas eficazes, bem como aparentemente de uma política de pagamento decente aos funcionários. Vale a pena? Sim, se tivermos dinheiro para a pagar (90% das pessoas não tem).

Garnier - parte de um grande grupo, a Garnier aposta nas texturas e em ingredientes básicos, bem como no marketing. Vale a pena? Sim, se não houver dinheiro/vontade de investir em produtos mais interessantes em termos de qualidade/preço.

Vichy - parte de um grande grupo, aposta em alguns ingredientes interessantes e muito marketing. Vale a pena? Não (não tenho muito mais a dizer sobre isto).

ISDIN - aposta principalmente em investigação/inovação, ingredientes e fórmulas (e marketing a nível de visita médica), tendo-se especializado em áreas de patologias da pele e protecção solar. Vale a pena? Sim, embora alguns preços possam ser elevados.

La Roche-Posay - parte de um grande grupo, aposta em ingredientes, fórmulas eficazes e marketing. Vale a pena? Sim, desde que não se procure a experiência da cosmética elevada.

Cien - aposta em ingredientes básicos e preços baixos, o que se traduz numa relação qualidade/preço muito interessante (mas onde nem a qualidade nem o preço são elevados). Vale a pena? Não, a menos que o orçamento não permita algo melhor - continua a ser melhor do que nada.

Clarins - uma marca de cosmética elevada que aposta em ingredientes, fórmula e textura, mantendo um bom equilíbrio entre todos. Vale a pena? Sim, se se quiser uma marca eficaz mas também a experiência agradável da aplicação (e desde que se tenha dinheiro para isso).

 

(não foi acidentalmente que escolhi várias marcas do grupo L'Oréal, apenas para mostrar que "serem do mesmo grupo" e "serem produzidos nos mesmos locais e possivelmente pelas mesmas equipas" não diz nada a respeito das políticas internas e da qualidade do produto)

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