Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

The Skin Game

Blogue português escrito por uma profissional de farmácia e dedicado à dermocosmética.

Mitos e pele - vamos desmistificar algumas ideias erradas

É Dia das Mentiras e eu detesto este dia. A única coisa que tem alguma piada são os "produtos falsos" que por vezes se vêem e que uma pessoa pensa "eu comprava!". Ou o facto de Pandaria no WoW ter sido anunciada por piada num dia destes e ter tido tanto sucesso que acabaram por realmente fazer. Mas não estamos aqui para falar de jogos. Já que é dia das mentiras, decidi abordar aquelas coisas que muita gente pensa que são verdade, mas que na verdade são mitos urbanos. Ora vamos lá a isto...

 

Capture.JPG

 

Se era usado em medicinas antigas é porque é o melhor - já perdi a conta ao número de vezes que li algo como "porque já no tempo de Aristóteles se utilizava o ingrediente X". Ora bem, claro que há ingredientes que são realmente bons e que já se usavam há 2000 anos atrás. Não é isso que estou a contestar. O que estou a contestar é que lá porque alguém descobriu num livro antigo que se usava o ingrediente X para o rosto, não quer dizer que seja a melhor ideia de sempre voltar a utilizá-lo só porque gerações anteriores o faziam. Primeiro que tudo, há que considerar que a esperança média de vida passou de 30 para 80 anos, por isso se há coisa que hoje em dia sabemos mais do que as gerações anteriores é manter-nos vivos. Depois vamos olhar para a Cleópatra: dizem que se banhava em leite de burra para ter uma pele suave. Ok, o leite de burra é um ingrediente muito bom, sim senhor, ela sabia o que fazia. Agora, a Cleópatra também usava chumbo para fazer o eyeliner preto e a mim não me apanham a meter chumbo no rosto.

 

Sem químicos - por favor, parem de dizer que certas fórmulas não têm químicos. É impossível fazer o que quer que seja sem químicos, porque todos os ingredientes são químicos. Para evitar químicos iam ter de parar de respirar, porque o oxigénio é um químico - e isso era capaz de não correr muito bem, assim de repente. Se se querem referir ao oposto de um produto natural, então usem a palavra "sintético", que significa que é resultado de uma síntese, mas parem de dizer que um produto tem ou não tem químicos.

 

Natural é que é bom - depois de termos falado do sintético vs químico, vamos falar do facto de muita gente achar que natural é que é bom. Muito sinceramente esta linha de pensamento custa-me muito a processar, pelo simples facto de que é tão sem fundamento que nem sei por onde começar. Muitas vezes ouço dizer que é porque não tem químicos - bem, dessa parte já falámos lá em cima, é impossível.

Outras vezes dizem-me que o que é natural tem de ser melhor do que o que é produzido pelo homem. Ora, nisso eu não percebo porquê, até porque a natureza faz coisas giras como os venenos mais potentes do mundo. Aposto que lá por vos dizerem que era natural não iam querer pô-los na pele. Então, se a natureza faz coisas boas e más, não é possível que os ingredientes sintéticos também possam ser bons ou maus? E que, escolhendo os bons ingredientes, consiga-se uma fórmula muito superior a uma fórmula natural?

Vamos falar ainda de outra questão... dizem que os ingredientes naturais são melhores porque as peles sensíveis e alérgicas dão-se melhor com eles. Se eu tivesse uma pele extremamente alérgica, não me apanhavam de certeza a usar produtos naturais. Pensem em comida: a qualidade de uma maçã depende do tempo que esteve quando cresceu, do facto de ter muita ou pouca água, do tipo de solo onde estava a árvore, do facto de ter ou não apanhado sol. Tudo isso influencia a composição da maçã e portanto a sua textura e o seu sabor. Ora, isto acontece com todos os ingredientes naturais. A composição de uma planta não é uma característica fixa, está sempre dependente de vários factores enquanto cresceu, e por isso mesmo é sempre complicado garantir que é sempre aquela quantidade do composto X ou Y. Além disso, um extracto de uma planta pode contar centenas de compostos diferentes e todos eles estarão em quantidades variáveis de planta para planta. Se alguém tiver uma pele reactiva não será mais arriscado comprar um produto à base de extractos do que à base de sintéticos que foram colocados na fórmula em concentrações conhecidas e fixas?

 

A pele habitua-se aos produtos - a pele não se habitua a produtos (a não ser algumas excepções como o retinol ou os antibióticos e antifúngicos). O que acontece é que a pele muda constantemente. A nossa pele reflecte a nossa alimentação, o ambiente que nos rodeia, e tudo mais que se possa passar com o corpo. Portanto, é normal que a pele sofra alterações numa base diária e que as suas necessidades vão mudando. Só que não foi porque a pele se habituou a determinado produto, foi porque as necessidades da pele mudaram e esse produto já não consegue supri-las.

 

Os ingredientes penetram o nosso corpo e vão para a corrente sanguínea - a diferença entre um medicamento e um cosmético é que o medicamento atinge a corrente sanguínea, mas o cosmético não. Logo, os ingredientes não vão chegar a outros órgãos. Linhas de pensamento como "só se pode pôr na pele aquilo que se pode comer" não têm um bocadinho de lógica que seja, porque todo o processo é completamente diferente e não tem sequer equivalência.